quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Lobateando...


Ai que saudade dos tempos da minha infância onde a maior preocupação que eu tinha era em brincar, subir em árvores, “pegar emprestadas” as pêras do vizinho, e cuidar para que eu tivesse uma justificativa convincente quando minhas “artes” eram descobertas.



Aliás, alguém já parou para pensar porque as travessuras das crianças são chamadas de “artes”. Eu já. Nunca cheguei a uma conclusão. Mas tenho a minha interpretação: alguém já viu arte maior nesse muito do que viver e se divertir como uma criança. Quando ficamos adultos é que sentimos falta dessa grande obra de arte chamada infância.


E um escritor entendeu como ninguém a magia dessa obra: Monteiro Lobato. Que menino daquela época não tinha um bodoque (estilingue) pendurado no pescoço como o Pedrinho? Que menina nunca teve uma caixinha em que guardava seus segredos como a Emilia? Quem de nós não se imaginou no Reino das Águas Claras? Tendo toda aquela liberdade? Envolvendo-se em aventuras, defendendo as matas e os animais? Quem nunca brincou de PIRLIMPIMPIM?


Ah! Minha infância lobateana...


Hoje em dia, aqueles personagens que somente visavam satisfazer seus sonhos e aventuras infantis, são substituídos por personagens violentos, que fazem compras em shoppings e se vêem as voltas com vilões bem diferentes daqueles que “lutavam” contra nossos heróis.


Não se sobe mais em árvores, aliás, nem se sai mais a calçada por medo da violência.


Os playgrounds artificiais, plastificados, sem cheiro de mato, sem gosto de aventura, se espalham pela cidade. Personagens folclóricos como o saci, a Iara, a mula sem cabeça, agora não enriquecem mais a imaginação infantil, e no máximo são considerados trechos menos importantes nos livros de história.


E depois adultos compram desenfreadamente livros de auto-ajuda; pais procuram saber como educar seus filhos. Mas está tudo lá...Nas lindas histórias de Monteiro Lobato: O amor à natureza, o respeito aos mais idosos, a importância da leitura, do contar história às crianças, o banho no riacho, a liberdade, a experimentação, a compreensão, a sensatez, a cumplicidade, a confiança, a não violência ás crianças, a exaltação da ARTE de ser criança, de ser em detrimento do ter. Monteiro Lobato pode ser o “respiro” de liberdade das crianças enclausuradas, pode ser o salto imaginativo para a liberdade, mas para tal os pais tem que ensinar o gosto pela leitura. E não é só dizer que é importante ler. È mostrar. É ler, não só para as crianças, mas para si mesmo. Pois as crianças absorvem mais o que fazemos por nós mesmo do que aquilo que fazemos por elas. E só um amor verdadeiro pela leitura pode desbancar um vídeo game.


Minha filha ama livros, ama histórias, ama Monteiro Lobato. Ela vive a magia. Magia começada nos livros do pai e tendo seu ápice nos episódios da tv. Ela se imagina e se fantasia como a Emilia, ela gosta do Visconde por seu amor aos livros e vive guardando suas “coisas secretas” em caixas de sapatos.


Tentemos nós, adultos, resgatar a magia de sonhar, de encontrar nessa selva nossa jabuticabeira, de ser como uma boneca de pano sem medo de falar o que pensa, enfim, resgatemos as artes, artimanhas, peraltices e sorrisos de ser criança no mundo lobateano.

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Arthe

segunda-feira, 26 de outubro de 2009


"E é só você que tem




A cura pro meu vício



De insistir nessa saudade



Que eu sinto


De tudo que eu ainda não vi."


(Indios - Legião Urbana)





sábado, 24 de outubro de 2009

Poema do amigo aprendiz


Quero ser o teu amigo.

Nem demais e nem de menos.



Nem tão longe e nem tão perto.


Na medida mais precisa que eu puder.


Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,


Da maneira mais discreta que eu souber.


Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.


Sem forçar tua vontade.


Sem falar, quando for hora de calar.


E sem calar, quando for hora de falar.


Nem ausente, nem presente por demais.


Simplesmente, calmamente, ser-te paz.


É bonito ser amigo, mas confesso é tão difícil aprender!


E por isso eu te suplico paciência.


Vou encher este teu rosto de lembranças,


Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias...


Fernando Pessoa

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Feliz aniversário minha afilhadinha amada!
Achou que ia passar desapercebida é? rsrsrs
beijocas no coração
Arthe


Feliz aniver Caipi



sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Eros e Psique


Eros e Psique







Conta a lenda que dormia


Uma Princesa encantada


A quem só despertaria


Um Infante, que viria


De além do muro da estrada.







Ele tinha que, tentado,


Vencer o mal e o bem,


Antes que, já libertado,


Deixasse o caminho errado


Por o que à Princesa vem.







A Princesa adormecida,


Se espera, dormindo espera,


Sonha em morte a sua vida,


E orna-lhe a fronte esquecida,


Verde, uma grinalda de hera.







Longe o Infante, esforçado,


Sem saber que intuito tem,


Rompe o caminho fadado,


Ele dela é ignorado,


Ela para ele é ninguém.







Mas cada um cumpre o destino


Ela dormindo encantada,


Ele buscando-a sem tino


Pelo processo divino


Que faz existir a estrada.







E, se bem que seja obscuro


Tudo pela estrada fora,


E falso, ele vem seguro,


E vencendo estrada e muro,


Chega onde em sono ela mora,







E, inda tonto do que houvera,


À cabeça, em maresia,


Ergue a mão, e encontra hera,


E vê que ele mesmo era


A Princesa que dormia.






Fernando Pessoa

 
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Raramente posto algo no meu Bosque que não seja de minha autoria. Abri a exceção para esse poema do Pessoa porque o leio desde a minha adolescência e, talvez somente agora, compreenda a intensidade de suas palavras.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009


Me perdi por ai...
Entre nuvens e sonhos...
Chuvas e lágrimas...
Dor e prazer...
Quem me encontrar...
Favor não me devolver!

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Arthe

Gotas


Ora nutrindo a vida com amor, ora com dor.

Na flor - a chuva
Nos olhos - a lágrima
Na boca - a saliva
Na nuca - o suor
No sexo - o gozo
No poema - a inspiração.

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Arthe

Pintura


Você me deu a forma.
Eu escolhi as tintas,
as cores,
as matizes,
os contrastes.

Ontem...
Vermelho vibrante.
Amarelo ofuscante.
Azul brilhante.
Verde contagiante.

Hoje...
O vermelho envelhecido...
O amarelo esmaecido...
O azul acizentado...
O verde acabrunhado...

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Arthe

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Não procures...





Não procures sentimento onde não existe alma.
Não procures alma  onde só existe corpo.
Não procures desvendar o corpo onde só existem máscaras.
Não procures compreensão onde só existe o gozo.
Não procures o gozo onde não existe entrega.
Não procures a entrega onde não há partilha.
Não procures partilha onde não existe comprometimento.
Não procures comprometimento onde não existe Verdade.
Não procures verdade onde não existe amor.

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Arthe

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

E a vida segue...



 Veranicos de primavera







Em meio a flores e chuvas,


Polens e brisas,


Folhas outonais e botões precoces,


O findar-se e o renascer..


Surgem os veranicos primaveris.






Momentos de calor inesperado,


Exigindo que a natureza se adapte,


Que o corpo desperte,


Que a alma se adocique.






Com as percepções ainda dormentes


Pelo sentir invernal,


Somos forçosamente despertos


Pelo chamado impiedoso do viver.






E não nos restam escolhas...


Precisamos sentir..


Reagir...


Aquecer-se...


Adaptar-se...


Florescer...


e


Deixar-nos perfumar.

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Arthe